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Better on tv than on the streets

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O título desta divagação ilustra a mais importante linha de diálogo proferida pelo protagonista de Videodrome (1983). Até que ponto é justificável um acto dito imoral poder ter o seu destaque no ecrã? Imergir num filme do Cronenberg é como comprar um bilhete só de ida para o inferno da mente humana. Removida a camada superficial adornada de violência, o espectador descobre nos seus filmes questões fundamentais que rodeiam a essência humana. Distribui numa bandeja obras que levam o indivíduo a questionar-se a si mesmo, tentando afastar-se do conjunto para avaliar a sua posição integrante perante o mesmo. Faz ressurgir desejos reprimidos que aparentam não ter lugar numa sociedade civilizada. 
"The eye is the window of the soul"
Diariamente consumimos imagens, na grande maioria das vezes de forma inconsciente. Integram o nosso dia-a-dia e acabam por ser banalizadas. Gradualmente a noção de realidade esbate-se e é remetida para segundo plano. O advento do realismo transporta o s…

TCN Blog Awards 2013

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É com enorme satisfação que vejo este pequeno espaço nomeado em duas categorias, sendo estas de Novo Blogue e Crítica de Cinema. É uma honra poder estar emparelhado com muitos outros autores de boas críticas desta sétima arte que tanto idolatramos. Muito obrigado pela distinção. Boa sorte a todos.  Podem consultar as categorias na íntegra aqui. Passo a transcrever a crítica nomeada:
The Last Laugh (1924)
Título Original: Der letzte Mann Realização: F.W. Murnau Argumento: Carl Mayer
[Spoilers] Muitos teóricos e historiadores que se debruçam sobre a sétima arte afirmam que algo se perdeu com o advento do primeiro filme sonoro em 1927. A nova possibilidade de transmitir uma ideia através do recurso a diálogos sincronizados com o som traria também uma conotação negativa. Perante tal possibilidade, surgiria o facilitismo das histórias e uma certa preguiça em inovar através da imagem. Uma nova mentalidade surgia, na qual a imagem não era mais o principal meio através do qual se contaria uma hi…

Plano-sequência (#7): Children of Men (2006)

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Com Gravity a surpreender pela positiva tanto na bilheteira como no círculo da crítica, Children of Men é um óptimo filme a rever como lembrança daquilo que Alfonso Cuarón é capaz como realizador. Não poderia reclamar melhor filme para encerrar esta primeira edição de selecção de planos-sequência. Uma rubrica que se pretende mensalmente regular, com uma semana especialmente dedicada à abordagem dos melhores exemplos na arte desta técnica que tanto admiro.  E é com uma perfeita noção de justiça que incluo os seus planos na mesma edição que se preenche com nomes como Tarkovsky, Godard, Welles, Haneke, etc. A par com o já abordado Touch of Evil, o filme de Cuarón apresenta os planos-sequências mais complexos. Não sendo possível a derradeira escolha, são assim destacados os dois planos-sequência mais ambiciosos. 
26:13 - 30:21
Automóvel. Tarde. Interior. A câmara afasta-se do protagonista que se encontra a dormir no banco de trás. Distancia-se até integrar no enquadramento a mulher no ass…

Plano-sequência (#6): Touch of Evil (1958)

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Celebrado como um dos maiores feitos na história da sétima arte, a abertura do filme de Orson Welles funciona como uma mini-narrativa que se desenrola no tempo real de pouco mais de três minutos. É realizada com o intuito de catapultar o filme mas também como forma de captar a total atenção do espectador, aquele que possui mais informação visual que todos os habitantes do mundo diegético. Funciona como uma confidência para com o espectador, que se limita a aguardar um acontecimento iminente.  Inicia-se com um enquadramento aproximado, destacando o objecto que se assume como o cerne da acção. A bomba é programada e esse mesmo relógio delimita a duração do plano-sequência. A partir daquele instante, o automóvel que alberga a bomba é o motivo que grita pelo movimento da câmara.  É usada uma grua (crane shot) para poder cobrir toda a acção, sendo assim possível fechar e/ou alargar o enquadramento. A câmara antecipa o percurso do veículo e eleva-se para dar lugar a um ângulo picado, que o…

Plano-sequência (#5): Boogie Nights (1997)

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Não é o único plano-sequência a ter em atenção na 2 ª longa-metragem da carreira de Paul Thomas Anderson mas é sem dúvida o mais engenhoso. Ao som de Best of My Love, o plano começa por enquadrar as letras em néon que ilustram o título do filme. Dessa forma conseguia assim garantir que o estúdio não pudesse tomar a liberdade de mudar o título que ele havia escolhido em primeiro lugar. A câmara sobe e muda de ângulo por instantes, enquadrando o nome da cidade em questão. Inverte o movimento e estabelece-se agora uma visão geral do espaço. O uso da steadicam confere uma fluidez que consome a atenção do espectador.  O automóvel a seguir já se encontra em campo e a câmara limita-se a acompanhá-lo. Tudo se encontra perfeitamente orquestrado, com as entradas e saídas dos figurantes coreografadas para preencher o quadro em movimento. Todas as peças se encontram no seu devido lugar, aumentando ainda mais a sensação de mestria do plano-sequência. Quando o veículo estaciona, dá-se a introdução…

Plano-sequência (#4): Le Révélateur (1968)

Philippe Garrel larga nas mãos do espectador um filme de cariz experimental, cuja total compreensão parece de alguma forma inatingível. Um filme mudo que apela à sua audiência com imagens marcantes, incluindo nas mesmas símbolos universais.  São muitos os planos-sequência que poderiam ganhar destaque de forma a ilustrar o filme. Aquele que aqui se protagoniza arranca com um ritmo acelerado com a câmara já em movimento. Observa-se uma vedação de arame farpado no primeiro plano do enquadramento, a qual se mantém presente na totalidade do plano. Um homem e uma mulher levantam do chão uma criança chorosa. As mãos enlaçadas e a criança no colo transmitem os valores familiares e a necessidade de protecção que acorre daquele momento. Inicia-se a corrida, com os olhares sempre lembrados a cobrir a retaguarda do espaço que gradualmente abandonam. Está criado o palco onde as personagens podem trabalhar o tempo e o espaço. É visível a associação com um campo de guerra. Uma banda-sonora germina im…

Plano-sequência (#3): Nostalghia (1983)

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Alguns minutos antes dos planos finais, Tarkovsky entrega nesta sua sexta longa-metragem um dos mais belos planos-sequência da história da Sétima arte. A acção desenrola-se de forma subtil, apoiada num cenário natural. O escritor protagonista tem apenas um objectivo: percorrer a totalidade da piscina drenada sem perder a chama da vela durante o percurso. Inicia o acto pela margem direita do enquadramento, à qual retorna sempre que a chama se extingue e necessita de recomeçar. Durante o acto a chama extingue-se por duas vezes, sendo igualmente duas as vezes que o escritor efectua o percurso inverso da esquerda para a direita. A câmara limita-se a acompanhar o corpo que enquadra, recorrendo a um travelling lateral para cobrir todos os seus passos. Mas deixa igualmente uma distância razoável relativamente ao sujeito filmado, entregando assim o tempo e espaço necessários à sua performance. Descabido rotular tal desempenho como uma performance? Afinal de contas, o espectador funciona como…