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A mulher iraniana, do choro ao silêncio

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Tão simples no seu pressuposto e ainda assim uma das mais belas aberturas da história do cinema? Do negro que faz desfilar os créditos iniciais de The Circle, sonorizados pela associação a um parto, ao primeiro plano que deixa entrever a luz. Cessam os créditos, entra o choro, o branco em jeito de chegada ao mundo. Simples. Eficaz. Mera sequência de planos de contraste, de um antes e depois, capaz de contar o lugar da mulher na sociedade iraniana que tão bem a demarca e menoriza. "É uma rapariga", boa nova recebida com desagrado e medo por uma mulher. Vemo-la de costas, véu negro que a adorna, naquele momento despojada de individualidade e amostra do sexo julgado como menor. Inconformada, a mãe da mais recente mãe volta a questionar o sexo, numa réstia de esperança por um possível engano. "É uma linda rapariga", assim lho asseguram novamente. Desespero crescente, capaz de antever a reacção do pai ao saber o sexo da criança. Naquele instante nasce a mulher como ser…

Resolução de ânus novo

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Há que entrar em Pieles - não entrem! - de régua na mão para se apreciar toda a mestria masturbatória do plano. Está no centro do enquadramento? Sim, está no centro. Vejam quão direitinho o prato de sopa na mesa filmada de cima para baixo. Mas estão a ver? Se calhar ainda não repararam bem. Vou inserir mais um plano perfeitinho só para ter a certeza de que viram como sei posicionar motivos em cena. Deixem-me contar-vos um segredo: gosto imenso dos filmes do Kubrick e do Wes Anderson. Aposto que não faziam ideia.
Assim é Pieles, postal ao quão plástica se consegue exibir a feitura de um filme. O uso da cor não é menos que um dos piores com que já violei estes meus olhos. Há o cenário rosa. Há o cenário roxo. E depois há ainda o rosa, sem nunca esquecer o roxo. Até mesmo a cor dos pêlos púbicos casam com a mise-en-scène. Nada é deixado ao acaso, tamanha a visão artística que aqui nasce, tropeça e morre. Durante 77 minutos não há descanso algum, mínima brecha à "normalidade" …

Ele até fez uns hambúrgueres...

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Diz ele que até cozinhou uns hambúrgueres um dia quando a mulher estava doente. E ela mesmo assim não o aceita, imagine-se. Alguém a relembre que aquele que ali se desculpa - um dos maiores narcisistas da história do cinema - provavelmente teve de os descongelar primeiro. Não é de ânimo leve. Por vezes nem dá para retirar o plástico na totalidade, tal é que ficam aqueles bocadinhos entranhados na carne. Mas pronto Laura Linney, como até tens umas nomeações aos Óscares podes dar-te ao luxo de ser esquisita.
The Squid and the Whale é uma das melhores amostras de um casamento que finda e consigo arrasta as crias na malfadada influência. Há inclusive tempo e espaço para a pergunta: e o gato, com quem fica? O argumento de Noah Baumbach é imbuído de um à-vontade nas motivações e vias a seguir. A causa para a ruptura fica ao nosso critério, em consonância com as peculiaridades do marido que gradualmente corroem a cara-metade. Por cada nova observação soberana do homem, mecanismo de defesa q…

O ócio que nos move

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O sonho americano, da promessa ao resvalar moral. Seres à margem, alvos do mesmo julgamento que colocara as personagens de Tangerinena beira do prato. The Florida Projectabandona um pouco a aura caseira do filme anterior de Sean Baker, popularmente conhecido por ter sido filmado com iPhone 5S, mas mantém uns certos laivos de documental que se acerca das "minorias". Visualmente mantém a palete caleidoscópica, não deixando nunca de parecer inato ao mundo em que se insere. Ambos se apresentam conscientes da contemporaneidade - as selfies no momento da desgraça, na ânsia do registo - sem incorrer no erro do expositivo da grande maioria dos filmes que desesperam em mostrar-se actuais e compreensivos da era virtual.

A força motriz de The Florida Project são as crianças, opção criativa que aqui funciona muitíssimo bem mas que tantas outras vezes se vê tiro ao lado pela escolha do elenco. São estas que pegam no espectador pela mão e o levam a explorar o espaço. A imaginação que lh…

Espera à porta que a mãe logo vem buscar-te

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Mom and Dad chega como lufada de ar fresco, semeando a vontade para que se revisite uma e outra vez em busca da mesma diversão tresloucada e descomprometida. Afirmação bastante precoce, sem que o tempo lhe dite peso e medida, mas a verdade é que parece piscar o olho à possibilidade de culto. Histeria em massa que faz com que os pais se virem violentamente contra os filhos. Do mesmo ano e equivalente no flutuante espectro de emoções só me vem à memória um Lowlife com sangue Tarantino. Ambos lá ficam na certeza de terem arrancado saltos no assento, nunca por medo mas por êxtase. Mom and Dad faz esboçar o sorriso na cena da escola (!), tal é o delírio que ali se concebe. A partir daí não mais esmorece.
Casa a um Nicolas Cage em todo o seu esplendor ("Open this motherfucking door") e uma Selma Blair que consegue surpreender na subtileza de emoções. A banda-sonora é uma fusão de estilos que pontuam aqui e ali o intercalar do terror e da comédia com uma fluidez de louvar. Uma rec…

TCN 2014: Nomeações

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Nova edição dos TCN Blog Awards, os prémios que têm o condão de agitar ainda mais a blogosfera.

Fargo e Videodrome. O sabor de tais nomeações acaba por se intensificar ainda mais ao saber que consigo transpor para palavras o meu amor por dois grandes produtos do pequeno e grande ecrã. Afinal de contas, quem não gosta de sentir que consegue transmitir através da escrita o entusiasmo suscitado por determinadas obras?
As nomeações para este humano não se ficaram por aí. Encontro-me igualmente nomeado na categoria de melhor rubrica. "Séries aos Quadradinhos" é a prova de que a BD se encontra a espreitar num beco escuro e gradualmente se insurge no panorama televisivo. Rubrica para a qual contribuo e que se originou na massa cinzenta da Syrin e do Gabriel Martins (o muy nobre dono do Alternative Prison). 
Por último, resta referir que o TVDependente se encontra novamente nomeado para melhor blogue colectivo neste que é o meu primeiro ano no seio desta equipa que gradualmente se …

Os pés também falam

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Recentemente tive a minha primeira incursão pelo cinema do sueco Victor Sjöström com a sua obra-prima máxima The Phantom Carriage (1921). Despertou uma vontade imensa de o proclamar como génio, ainda que consciente de que um único filme seria a base para tal afirmação. Seguiu-se The Wind (1928), espelho do seu embrenhar por Hollywood. Ainda que não fascine tanto quanto o primeiro, revela-se magistral trabalho de realização. 
O vento? Sempre presente. Rodopia, embrenha-se numa dança que envolve fascínio, desespero e morte. Invisível na sua existência solitária e efémera. Visível na interacção com o outro. Veículo do horror e aprisionamento sentidos pela protagonista. Carrega consigo a incerteza. Cobre e destapa a consciência da mulher. Preponderante nas suas decisões que não são mais do que maneiras de lhe fugir. 
A expressividade do rosto aliada aos intertítulos. Ambos constroem a linguagem para o cinema mudo. A dada altura, a câmara de Sjöström escapa aos rostos e enquadra os inquie…