The Great Buddha+, o umbigo e o capachinho


The Great Buddha+ deixa transparecer uma introspecção bastante sóbria, característica de quem chafurda nas ínfimas possibilidades do metacinema. O taiwanês Huang Hsin-yao - na primeira incursão pelo campo da longa-metragem de ficção, num alongar da sua curta homónima - avisa o espectador de antemão quanto à possibilidade de se vir a intrometer no curso da narrativa, em jeito de comentário áudio indissociável ao filme. Ocasional interacção entre produto fílmico e espectador, num piscar de olhos e reconhecer da presença - "O filme é a preto-e-branco, ninguém vai reparar na cor da mota", aponta a dada altura uma das personagens. Sendo que o voyeurismo lhe é tema maior, essa sua opção de se embrenhar no metacinema só eleva a postura do próprio espectador a um outro patamar de crítica.

Seres errantes - até mesmo o cenário se encontra em consonância com esse ocupar fluido de tempo e espaço - que procuram uma forma não só de passar o tempo mas também de apontar o dedo à classe social que os espezinha e olha de cima. É aí que entram em jogo os momentos privados do patrão de um deles, registados através de uma dashcam - os laivos de cor num filme que se vende em primeiro lugar a preto-e-branco - , vistos e revistos com olhar analítico por entre refeições. O humor sempre presente nos comentários, de mãos dadas com a sensação de que eventualmente algo de irreversível virá a ser testemunhado. É nesse balancear de géneros distintos que The Great Buddha+ triunfa e deixa marca indelével. Até mesmo no emprego da violência consegue arrancar gargalhadas, essas que parecem chegar tão desajustadas quando produzidas por voyeurs. Produto fílmico que se recusa a abraçar um só género, orgânico na decisão tomada. Uma maravilhosa cena final em torno da estátua titular - a belíssima cinematografia demarca-se quando a acompanha no exterior - que tão bem manobra a fragilidade de uma crença.

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