Plano-sequência (#9): Le Million (1931)

Uma das aberturas mais belas da história da sétima arte. Uma pequena amostra da grandiosa mise-en-scène exibida no decorrer do filme. Esta curta sequência é despoletada pela despedida entre dois amores que se recolhem no interior das respectivas casas para aguardarem mais uma vez pelo amanhecer que os irá juntar novamente. A arquitectura fornece uma certa intimidade ao teor romântico tão necessário a esta abertura. Habitações tão próximas que nem por isso deixam de delimitar o espaço privado de cada um.

As palavras de boa noite proferidas entre os dois amores marcam o início do movimento de câmara. Uma panorâmica horizontal afasta-se do canto enamorado, dando lugar a um travelling lateral, da esquerda para a direita, que explora a complexidade dos telhados de Paris. Um olhar superior quase omnipresente.

Uma música extremamente animada chama pelo enquadrar da câmara e eleva-se na intensidade com o aproximar desta. É altura do plano dar lugar aos seres nocturnos, aqueles que abandonam o conforto do interior para se casarem com os desafiantes sons. A iluminação vinda do patamar inferior atrai a curiosidade de dois homens. Uma janela que promete a entrada numa história prestes a ser contada. Largam-se os anónimos que deambulam pelo telhado, focando-se a atenção nas personagens de destaque.

Um plano-sequência que representa uma brilhante aliança entre cinema e arquitectura, situando um conjunto de pessoas num ambiente bastante próprio.

00:00 - 01:34


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