Crítica: Fahrenheit 9/11 (2004)

Argumento: Michael Moore
Realização: Michael Moore

[Spoilers] A 11 de Setembro de 2001, um acontecimento monumental nos Estados Unidos da América mudou o Mundo. A Humanidade sofreu um abanão social e político que viria a ter as mais variadas repercussões até aos dias de hoje. A 31 de Maio de 2013, a um nível altamente pessoal, algo voltou a mudar na minha existência. Não sei precisar o quê, mas apenas posso afirmar com toda a certeza que o Michael Moore se pode eleger como o responsável. Estreado em 2004 perante um público em Cannes que o recebeu com uma salva de palmas de uma módica longevidade de vinte minutos, este documentário apenas mereceu a minha visualização neste presente dia. Muitas foram as oportunidades de o ver e muitas foram as oportunidades dispensadas. De qualquer das formas, dou graças de não o ter visto aquando da sua estreia em 2004, pois não me parece que teria sido muito receptivo a toda a sua diabólica temática com apenas 14 anos. 
08h46min: primeiro avião. 09h03min: segundo avião. Ambas as torres gémeas haviam já albergado os respectivos ataques. Observamos a impotência do presidente dos Estados Unidos da América, enquanto acompanha a leitura dos pequenos alunos de uma escola primária, em plena consciência de que o seu país está sob ataque. 
O paralelismo que a montagem evidencia é mais do que necessário. No mundo real, temos o sofrimento da população face a um acto tão horrendo e impensável. Por outro lado, num prisma um pouco mais deslocado e não menos real, temos a reacção de Bush face a algo que se integra ao seu compêndio. Antes do ataque propriamente dito, temos outro mas deita feita ao senso comum. Bush retira umas alargadas férias imediatamente antes ao feito terrorista. Férias que parecem tê-lo feito ignorar algumas tarefas. Michael Moore faz questão de salientar tal ausência, sempre com o seu humor tão característico e sem medo de atingir em cheio na carga satírica. 
Limitamo-nos a ouvir o terror que se instala naquela fatídica manhã. Muitas foram as imagens que nos bombardearam a mente aquando do ataque terrorista, mas poucas como no filme de Michael Moore. Melhor dizendo, a imagem está ausente, sendo substituído por nada mais do que negro. Os sons assumem todo e qualquer protagonismo, causando desconforto e angústia ao espectador. Também um som pode valer mais do que mil palavras. A dor é universal e o nosso sentido de audição não se deixa ficar indiferente. 
Com Bowling for Columbine (2002) garantiu o seu reconhecimento como um dos mais importantes documentaristas das duas últimas décadas. Em Fahrenheit 9/11 eleva o seu estatuto para um dos realizadores mais temidos dos Estados Unidos da América. Calculo que sejam muitas as entidades e corporações que passem por dificuldades a adormecer, com receio de que Michael Moore decida focar a sua atenção nas mesmas. Este pretende esmiuçar toda e qualquer incongruência que possa existir. Tem a verdade na sua mira, mais para além do que os sorrisos esboçados ou a selectividade dos media aparentam revelar. 
Claramente inserido num modo de documentário performativo, Michael Moore recorre mais uma vez à sua própria voz para organizar o fio condutor do filme. O seu discurso acompanha a visão do espectador e acaba por colocar questões que também este germina na sua mente. Consegue transportar a sua personalidade sem nunca distorcer os factos. Integra o seu próprio filme, interagindo com os vários indivíduos em questão, acabando por fazer parte do enquadramento na grande maioria das vezes. Os seus objectivos são claros e perceptíveis através da estrutura do seu argumento. A montagem é eficaz, roçando o sensacionalismo para atingir em cheio na crítica social e política. As sequências são organizadas de forma a demonstrar sempre as proporções que determinado acto tomou. 
Sorrisos. Mulheres a revelarem um pouco da sua alegria por debaixo dos turbantes. Crianças a aproveitarem a inocência que ainda paira. Uma em particular deixa o seu corpo deslizar num escorrega. Antes de os seus pés tocarem no chão, já a montagem cedeu lugar à explosão que lhes retirou a vida. A manipulação da estrutura sem nunca fugir às proporções da realidade. A banda-sonora é igualmente eficaz, mas esta pela sua subtileza. Anda de mãos dadas com os momentos mais dramáticos.
A câmara do documentarista persegue o motivo, sem nunca o largar e sem substituir a sua importância por motivos maiores que possam aparecer sem pré-aviso. No final, Michael Moore toma as rédeas do seu país e entrega a homenagem que era necessária para as vítimas da Guerra do Iraque e seus respectivos familiares. Não têm como o saber, mas o documentarista procurou e expôs a verdade sem qualquer receio por possíveis futuras represálias. Um dos seus objectivos, o de poder mudar a mentalidade da população de forma a impedir a reeleição de Bush, falhou. Mas ficará gravado na história da sétima arte. 
"George Orwell once wrote that, "It's not a matter of whether the war is not real, or if it is, Victory is not possible. The war is not meant to be won, it is meant to be continuous. Hierarchical society is only possible on the basis of poverty and ignorance. This new version is the past and no different past can ever have existed. In principle the war effort is always planned to keep society on the brink of starvation. The war is waged by the ruling group against its own subjects and its object is not the victory over either Eurasia or East Asia but to keep the very structure of society intact.", Michael Moore
Não tenho qualquer dúvida de que diante dos meus olhos, desfilou um dos filmes mais importantes da década passada. E a título mais pessoal, um dos documentários mais importantes da minha existência. 

Classificação: 10

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