Os pés também falam

Recentemente tive a minha primeira incursão pelo cinema do sueco Victor Sjöström com a sua obra-prima máxima The Phantom Carriage (1921). Despertou uma vontade imensa de o proclamar como génio, ainda que consciente de que um único filme seria a base para tal afirmação. Seguiu-se The Wind (1928), espelho do seu embrenhar por Hollywood. Ainda que não fascine tanto quanto o primeiro, revela-se magistral trabalho de realização. 

O vento? Sempre presente. Rodopia, embrenha-se numa dança que envolve fascínio, desespero e morte. Invisível na sua existência solitária e efémera. Visível na interacção com o outro. Veículo do horror e aprisionamento sentidos pela protagonista. Carrega consigo a incerteza. Cobre e destapa a consciência da mulher. Preponderante nas suas decisões que não são mais do que maneiras de lhe fugir. 

A expressividade do rosto aliada aos intertítulos. Ambos constroem a linguagem para o cinema mudo. A dada altura, a câmara de Sjöström escapa aos rostos e enquadra os inquietos passos do recém-casal. E nesse instante apercebemo-nos que os pés também falam.

Os pés da personagem masculina carregam consigo nervosismo e a câmara faz questão de oscilar e acompanhar o seu percurso. Da direita para a esquerda. Da esquerda para a direita. A protagonista anseia por uma decisão e responde aos sons produzidos no soalho. Também ela empreende um trajecto semelhante, como que dependente do homem. Uma porta os separa. E o vento? Sempre presente. Faz-se ouvir, insurge-se na iminente decisão. 

Os pés do homem suspendem o movimento. Os pequenos sapatos da mulher respondem da mesma forma e aguardam pelo próximo acto. Os pés do seu marido libertam a fúria ao pontapear uma caneca. A mulher recua alertada pelo som. A determinação toma conta do homem. Entra no quarto. A protagonista recua mais um pouco, contando-se nesse movimento o horror que sente. Segundos mais tarde o rosto viria a complementar tamanho sentimento. Os pés encontram-se finalmente. A câmara liberta-se dos consecutivos planos aproximados, deixando agora o espectador com mais espaço para respirar.



Comentários

  1. Que maravilhosa descrição. Certamente o filme deve ser para bons, para sensíveis observadores, que enxergam além da história.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bem-vinda Michele!

      Obrigado pelas palavras, melhor elogio que poderia receber :) Aconselho vivamente a visualização!

      Enquanto escrevo este comentário apercebo-me de que esta minha resposta chega "apenas" com 5 meses de atraso. Uma vergonha!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

The Great Buddha+, o umbigo e o capachinho

A arte de comer esparguete

Ecrã de Haneke