Plano-sequência (#3): Nostalghia (1983)

Alguns minutos antes dos planos finais, Tarkovsky entrega nesta sua sexta longa-metragem um dos mais belos planos-sequência da história da Sétima arte. A acção desenrola-se de forma subtil, apoiada num cenário natural. O escritor protagonista tem apenas um objectivo: percorrer a totalidade da piscina drenada sem perder a chama da vela durante o percurso. Inicia o acto pela margem direita do enquadramento, à qual retorna sempre que a chama se extingue e necessita de recomeçar. Durante o acto a chama extingue-se por duas vezes, sendo igualmente duas as vezes que o escritor efectua o percurso inverso da esquerda para a direita. A câmara limita-se a acompanhar o corpo que enquadra, recorrendo a um travelling lateral para cobrir todos os seus passos. Mas deixa igualmente uma distância razoável relativamente ao sujeito filmado, entregando assim o tempo e espaço necessários à sua performance. Descabido rotular tal desempenho como uma performance? Afinal de contas, o espectador funciona como a audiência para a qual o indivíduo dispõe o seu corpo em tempo real. E a escolha de Tarkovsky por não esquartejar na montagem o plano em questão é mais do que acertada. Remete o acontecimento para o acaso, deixando que se crie um simbiose do indivíduo com o tempo. 
A respiração cada vez mais ofegante. As poças a permitirem a sua passagem. A queda das gotas e o seu eco. A banda-sonora tenta eliminar qualquer artificialismo que ainda se possa sentir. 
No final, nada se avizinha para além de um acto derradeiro que se camufla de obra de arte. O espectador tenta perceber o que o move e acaba também por fazer igualmente parte da busca por um sentido. A chama mantém-se e assume-se agora como o vestígio de um acto passado. Prestes a esfumar-se. 
Andrei Tarkovsky apresenta um verdadeiro poema visual e são poucas as palavras que se podem inserir neste contexto como identificativas de toda a sua plenitude. Por esse mesmo motivo, talvez um poema do seu pai possua o condão de expressar melhor a sua essência: 

I don't believe in omens or fear 
Forebodings. I flee from neither slander 
Nor from poison. Death does not exist. 
Everyone's immortal. Everything is too. 
No point in fearing death at seventeen, 
Or seventy. There's only here and now, and light; 
Neither death, nor darkness, exists. 
We're all already on the seashore; 
I'm one of those who'll be hauling in the nets 
When a shoal of immortality swims by. 
Duração: 8'44''

Comentários

Mensagens populares deste blogue

The Great Buddha+, o umbigo e o capachinho

A arte de comer esparguete

Ecrã de Haneke