Plano-sequência (#5): Boogie Nights (1997)

Não é o único plano-sequência a ter em atenção na 2 ª longa-metragem da carreira de Paul Thomas Anderson mas é sem dúvida o mais engenhoso. Ao som de Best of My Love, o plano começa por enquadrar as letras em néon que ilustram o título do filme. Dessa forma conseguia assim garantir que o estúdio não pudesse tomar a liberdade de mudar o título que ele havia escolhido em primeiro lugar. A câmara sobe e muda de ângulo por instantes, enquadrando o nome da cidade em questão. Inverte o movimento e estabelece-se agora uma visão geral do espaço. O uso da steadicam confere uma fluidez que consome a atenção do espectador. 
O automóvel a seguir já se encontra em campo e a câmara limita-se a acompanhá-lo. Tudo se encontra perfeitamente orquestrado, com as entradas e saídas dos figurantes coreografadas para preencher o quadro em movimento. Todas as peças se encontram no seu devido lugar, aumentando ainda mais a sensação de mestria do plano-sequência. Quando o veículo estaciona, dá-se a introdução das primeiras personagens. E nesse mesmo aspecto reside o maior trunfo na planificação de Paul Thomas Anderson. As personagens relevantes ao enredo partilham o mesmo tempo e espaço e a câmara desempenha o seu papel ao registar os traços que as distinguem entre si. Num único plano somos colocados numa década, cidade e no seio de um grupo de pessoas. 
As consecutivas voltas de 360 graus em torno de personagens de destaque, enquanto estas são apresentadas ao espectador num espaço de poucos segundos. As mudanças de ângulo são feitas de forma subtil, não perdendo do enquadramento as personagens que proferem as linhas de diálogo. A câmara funciona como um ser curioso que acompanha com o olhar tudo o que lhe suscita a atenção dentro do clube nocturno. Com o seu findar, o plano enquadra a derradeira personagem, agora sem qualquer movimento. Termina em slow motion, relembrando o espectador a descansar o olhar naquele que se irá assumir como o protagonista daquela história. 
Um plano-sequência que eleva o filme a outro patamar em termos técnicos. Um início simplesmente genial.

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