Indie Lisboa '13: Burn (2001) + Sugar (2005)

Este quinto dia da décima edição do festival sagrou-se como o primeiro a um nível mais pessoal e educou-me o olhar com a descoberta do trabalho dos cineastas Patrick Jolley e Reynold Reynolds. Sessão que integrou o programa dedicado ao primeiro e que foi apresentada por Linda Quinlan. E passo a citar algumas das palavras desta, usadas em jeito de definição da (curta) obra de Jolley: 
"(...) It represents an inner world...unsettling but quite familiar..."
Após estas palavras, a sessão iniciou-se com Burn, uma curta-metragem que me conseguiu fascinar, contrariamente ao acompanhamento de longa duração que se lhe sucedeu. 
Fogo. Labaredas que tudo consomem no decorrer do seu sedento percurso. Uma força da natureza que não deixa ninguém indiferente. Movimentos, paletes de cores e cheiros que são como símbolos universais. O ser humano reconhece e responde quase que de forma imediata a este perigo exemplar. Uma sensação de medo que se encontra impregnada no senso comum. Mas e se a reacção perante este agente extraordinário não for tratada para além da indiferença? 
Observamos personagens a viver este dia como qualquer outro. Um homem tenta apagar algumas das chamas que o cercam com o jornal, sem retirar os olhos do que neste está inscrito. A banalidade do acto arranca algumas gargalhadas dos espectadores. Algo anormal e até mesmo surreal que não se afirma como uma reacção a ter. Acaba por se pintar um pouco em tons de comédia mas nem por isso deixa de ser um importante estudo da mente humana. 
Observar as chamas a consumir cada canto da casa, cada retrato familiar, cada objecto, é absolutamente fascinante. E toda a passividade que as personagens emanam, contribui ainda mais para exacerbar a força do fogo. Os belos movimentos de câmara conseguem transmitir a calma que está longe de se fazer sentir na realidade. 

Classificação: 8/10
"Ver estes dois trabalhos numa sala de cinema às escuras, como se fossem uma curta e uma longa-metragem de cinema, altera a própria percepção que se pode ter deles e pode prejudicá-los, pois instala artificialmente uma continuidade narrativa tradicional que não corresponde à própria natureza dos objectos. Isto é certamente mais sensível em Sugar, bem menos rigoroso do que em Burn e cuja proposta é menos rica do ponto de vista visual e conceptual. Além disso, neste trabalho, os seus autores pisam num território muito minado, extremamente difícil de figurar no "cinema" ou naquilo que se assemelha (e embora seja uma instalação em pescadinha Sugar tem a duração de uma longa-metragem e uma estrutura narrativa tradicional oriunda do cinema): o mundo mental, a deformação do mundo real pelas fobias, lembranças e sonhos. Sugar deve ter suscitado muitas análises feministas com o seu cortejo de clichés, mas a configuração daquilo que o site de herdeiros de Patrick Jolley define como "uma viagem pelos vertiginosos territórios da mente, que dissolve os parâmetros entre realidade e psicose, sonho e ilusão, e vai à deriva num labirinto criado pela impressionante interpretação de Samara Golden" nem sempre se materializa naquilo que vemos na tela, necessita ser enunciado como uma ideia, um conceito. E este conceito nasce do trabalho de Samara Golden, muito justamente credita como co-autora da peça: uma performance com objectos e com o próprio corpo dela, cujo ponto central é o narcisismo, a auto-contemplação." - António Rodrigues 
No que a Sugar diz respeito, a minha capacidade de degustação do mesmo ficou a anos-luz do que senti ao ver Burn. Provavelmente merece uma segunda visualização mas não posso afirmar que seja por puro gosto, mas sim para uma possível maior compreensão. Veio-me à memória Eraserhead (1997), devido ao uso do preto-e-branco bem como pelos cenários rebuscados. Os apartamentos gerados na mente de Polanski e o clima tenso de Bug (2006) também me assolaram à mente. Apesar de tudo isto, não creio nunca ser capaz de atingir aquilo a que se propõe. E que meta é essa que se propõe a atingir? Quanto a isso, também não sei esclarecer. Samara Golden carrega a sua personagem de forma mais do que competente, mesmo sem precisar de empreender uma única fala, mas perde-se num argumento um tanto ou quanto defeituoso. Apreciei o seu carácter experimentalista, espelhando assim a mente fragmentada da protagonista. Apreciei o cenário claustrofóbico e os movimentos de câmara. Através de um prisma negativo, destaco o uso do preto-e-branco em contraste com a cor, que acaba por deixar o espectador em busca de explicações para tais mudanças repentinas. Não obstante o meu pobre embrenhar no filme, é um produto interessante que me faz querer conhecer mais da dupla germinadora. 

Classificação: 5/10

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