Indie Lisboa '13: Encontros e Desencontros

Colectânea de cinco curtas enquadradas na secção "Cinema Emergente" que me ocuparam o inicio da noite. Não havendo nenhum que me tenha deixado boquiaberto, Feral e Plutão foram agradáveis surpresas, em especial este último. 

A sessão iniciou-se com uma curta-metragem intitulada Imaculado pelas mãos do realizador Gonçalo Waddington. Um produto fílmico que nos traz uma rotura à ordem das coisas, ao apresentar um homem grávido. O mais interessante foi a subtileza através da qual esta peculiaridade nos foi apresentada. Por outro lado, esperava um maior aprofundamento do protagonista de forma a entendermos se algo está na origem de uma ânsia tão grande de ter um filho. Um argumento simples que merecia um melhor tratamento. O final é, a meu ver, ambíguo e decorrente desse aspecto resulta mais um ponto a seu favor.
5/10

Seguiu-se a única animação por entre o leque de escolhidos, Feral de Daniela Sousa. Uma animação de requinte que despreza uma caracterização mais aprofundada dos rostos, pois as personagens funcionam como que arquétipos. Um argumento que parte de um motivo extremamente recorrente no cinema mundial, a reeducação de um ser selvagem, mas que aproveita os poucos minutos de antena da melhor forma. A imposição de regras. A sobrevivência a par com a adaptação. O germinar de um sorriso que outrora transmitia raiva e receio. Destaque para a genial mistura de som.
7/10

A mais longa curta-metragem tornou-se claramente a minha predilecta da sessão. Em 2006 Plutão viu-se despromovido do seu cargo de planeta integrante do sistema solar. Anos mais tarde não cai no esquecimento na mente de Jorge Jácome e empresta o seu nome ao projecto que este desenvolve. O argumento é extremamente interessante e insere-se numa duração mais do que justificada. 
A distância megalómana entre a Terra e Plutão. A distância que se preenche num amor acabado? Incalculável. A história de Plutão serve apenas como pano de fundo para esta história de amor que tenta fugir aos malfadados clichés. E pode-se afirmar que o consegue. Cenários meticulosamente escolhidos onde este casal se deambula e gasta as horas que ainda os unem. Algo acontece e a distância dispara. E é nesse aspecto que foge às banalidades. Não se sabe ao certo o que despoletou este afastamento, se um conflito de interesses, se uma rotina sufocantemente crescente, etc. O que importa é que algo se perde e não são mais do que meros estranhos um para o outro. O protagonista é bastante competente a interpretar um ser ferido que orbita em torno de algo que perdeu, o amor. 
A pós-produção é realmente boa, com uma palete de cores a roçar o futurista e que me trouxe à memória a fotografia dos filmes de Wong-Kar Wai. 
8/10

Seguiu-se uma curta-metragem da autoria de João Vieira Torres e Alexandre Melo que caminha um pouco na mesma estrada do aqui elogiado Plutão. Dá-se pelo nome de A Dupla Coincidência dos Desejos e retrata um desencontro. Partindo de um conceito utilizado em economia, o argumento empreende uma história que foge do materialismo que à partida estaria inerente ao tal conceito. Os actores carregam as suas próprias vivências para o ecrã, pois desempenham sentimentos outrora sentidos. Um argumento extremamente mal aproveitado que tenta arrancar um sentimento de dor do espectador ao assistir a um encontro que não se dá, devido a imposições do tempo e do espaço. Alguns momentos explicativos em voz-off (como comer uma lagosta; como pescar) eram totalmente desnecessários, não acrescentando nada de relevante para a construção das personagens. Por outro lado, possui planos belíssimos, nomeadamente no que diz respeito ao enquadramento dos reflexos iniciais e finais. Dá origem a uma dinâmica incomum e consegue aproveitar da melhor forma o local de filmagem, o edifício peculiarmente espelhado. 
4/10

A sessão termina com uma curta-metragem baseada no conto homónimo de Moreira Campos, Dizem que os cães vêem coisas. Desconheço o conto mas parece-me uma ideia interessante já explorada em muitos outros exemplares da sétima arte bem como doutras áreas. Não através de um ponto de vista canino, quanto a isso concede-se a originalidade (parcial, pois desconheço se "partiu" concretamente de algo). Tem planos interessantes que compõem uma burguesia tirada dos filmes do Buñuel. O banquete repleto de moscas; o olhar excitado da mulher perante os abdominais do outro sujeito; etc. A crítica está bem presente mas a visão canina soa melhor no papel. 
4/10

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