Crítica: The Killers (1956)

Título Original: Ubiytsy
Realização: Andrei Tarkovsky; Aleksandr Gordon; Marika Beiku
Argumento: Andrei Tarkovsky; Aleksandr Gordon; (a partir do conto de Ernest Hemingway)

[Spoilers] O conto de Hemingway a partir do qual se alimenta esta curta-metragem, data de 1927 mas só chega à União Soviética vários anos mais tarde, tal como toda a sua obra. Tarkovsky tentava estar sempre a par do que se fazia na literatura e no cinema, de forma a absorver os movimentos artísticos que fervilhavam à sua volta. A história do escritor americano, na altura ainda vivo, despertou-lhe interesse de forma a adaptá-la na forma de um pequeno filme. Apesar de estar atrás das câmaras com mais dois colegas num mesmo nível de importância, muitas das suas sugestões foram bem aceites de forma a integrarem o resultado final. 
O filme centra-se num pequeno restaurante, cujo dono serve dois homens que acabam por actuar como gangsters em busca de uma vítima específica para matar. Decidem esperar até às 18 horas, pois têm o conhecimento de que o seu alvo recorre à comida daquele estabelecimento. O filme divide-se em três cenas, duas delas realizadas por Andrei, a par com Marika Beiku. Estas são claramente a primeira e a terceira cena. Em vinte minutos de filme, sensivelmente dezasseis acabam por ser realizados por ambos. Numa duração tão reduzida, cada segundo acaba por ser aproveitado da melhor forma, dando espaço para se testemunhar o crescimento gradual da tensão que se faz sentir. A tensão aqui espelha-se no uso de close-ups, de forma a enquadrar os olhares ansiosos, no uso da única panorâmica horizontal e em determinada altura numa montagem mais acelerada, notando-se uma transição entre planos um pouco mais atabalhoada. A direcção do olhar é usada exemplarmente, na medida em que serve como motivo para transitar de um plano para outro. Percebe-se claramente que por esta altura do campeonato, Tarkovsky já possuía todas as ferramentas para um bom aprofundamento da escala de planos. 
A mise-en-scène é bastante competente se pensarmos que se trata de um filme realizado por estudantes. Para além do local de filmagem se integrar no perímetro escolar, todos os adereços foram cedidos pela escola ou por familiares e amigos. É de salientar a presença dos espelhos numa altura ainda tão "inconsciente" no percurso do realizador aqui em questão. Esse objecto com múltiplos significados que viria a ser uma constante na sua obra, marca aqui a sua primordial presença. Encontra-se também um relógio, que pode ser meramente indicativo do aproximar da hora em questão, ou pensado como algo que pode adquirir um sentido mais profundo, como se nota no decorrer da carreira do realizador russo. O dedo de Tarkovsky faz-se sentir no argumento, sem diálogos a serem proferidos de uma forma demasiado rápida. Ainda que na duração mais reduzida da sua carreira, cada elemento toma o seu devido lugar num tempo e espaço correctos no decorrer do filme. Tarkovsky coloca-se igualmente em frente da câmara para representar um dos clientes, aquele que se destaca por assobiar uma música americana. Um assobio que simboliza liberdade e que partiu de uma sugestão do próprio Andrei. O elenco acaba por se comportar de uma forma bastante competente, se tivermos em conta de que se tratam única e exclusivamente de estudantes que integravam o All-Russian State Institute of Cinematography (VGIK)
Um pequeno filme que demonstra o sentimento de nos sentirmos presos a um sítio e a forma como nos podemos sentir inseguros no mesmo. É interessante a inclusão do assobio espelhado numa personagem passageira. A liberdade efémera que passa por aquele estabelecimento em contraste com a clausura sentida por outras personagens. No final da curta-metragem, com o fecho do cofre, não temos outra opção senão encerrar e ignorar aquele incidente em prol da sobrevivência. 
Em 1956 afirmou-se como algo inédito por entre as escolas de cinema, na medida em que foi a primeira proposta a ser aceite nas imediações da União Soviética que se originava a partir de um objecto literário estrangeiro. O filme foi bastante elogiado pelos professores do trio responsável. Apesar de ser uma reunião de múltiplas mentes, The Killers funciona como catapulta para a carreira inigualável que aguardava Andrei Tarkovsky. 

Classificação: 7/10

Comentários

  1. Opah, até me sinto mal de ainda não ter visto isto :/

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    1. Sendo do Tarkovsky que estamos a falar, então é um crime eheh :) É uma curta-metragem bastante interessante, na qual se começa a germinar o ponto de vista tão marcado deste génio.

      Abraço

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  2. Faço minhas as palavras do Narrador. Tenho de o pôr na lista de filmes a ver em breve :) obrigado pela dica!

    Abraço

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