Crítica: The Night Porter (1974)

Título Original: Il Portiere di notte
Argumento: Liliana Cavani
Realização: Liliana Cavani
Elenco: Dirk Bogarde; Charlotte Rampling

[Spoilers] Viena. 13 anos se passaram desde os acontecimentos monumentais da 2ª Guerra Mundial. A sociedade retoma gradualmente os seus eixos padronizados, com a memória impregnada de algo que mudou para sempre a história da humanidade. 
Outrora oficial SS. Actualmente porteiro de um hotel. É assim que descobrimos o protagonista, alguém que se encontra em plena procura pelo esquecimento. Encontra-se a meio de um processo do qual espera poder sair eternamente ileso de todos os crimes cometidos no passado, entre os quais se encontram várias ordens de execução. O seu novo cargo visa a disponibilidade imediata a clientes, estes que abusam do poder e da superioridade com que se investem. Outrora oficial precursor de crimes horrendos. Actualmente porteiro submisso aos caprichos de terceiros.
Certo dia, o seu processo de esquecimento é interrompido com a chegada de uma hóspede que o remete para as sensações vividas no campo de concentração. Uma sobrevivente, uma vítima que embala sequelas do Nazismo. É cometido um choque entre posições, entre passado e presente, entre memória e esquecimento. 
Ambos sentem um pouco de receio perante o que o outro pode significar na sua vida naquela altura. Mas tal receio não os impede de uma nova aproximação e a relação entre ambos ganha um novo ponto de vista. E neste aspecto o filme de Cavani gera grande controvérsia, por agitar a memória ainda fresca do horrendo genocídio sob uma óptica impensável. Outrora uma relação de poder e submissão. Uma ligação imposta pelas garras do oficial protagonista, da qual a vítima não tinha qualquer possibilidade de revolta. Actualmente uma relação sado-masoquista entre dois seres livres nos meandros de uma Europa pós-guerra. Uma relação forçada que se pinta como o terreno reconhecível sobre o qual têm de voltar a caminhar. 
Um dos aspectos mais positivos nesta obra passa pela exímia montagem, da qual deriva uma junção notável de imagens presentes com flashbacks, estes últimos que ilustram as sequências mais poderosas do filme. Determinados sons ou sensações despoletam a memória de ambos os protagonistas e transportam-nos para um passado que gradualmente relembram com preciosismo. O espectador sente o elo importante que se gerou entre ambos e como o mesmo ganha maior força no presente, num meio onde se respira uma maior liberdade. 
Uma batalha constante por preservar uma memória que a sociedade teima em roubar. A cena final demonstra uma fria crueldade que parece omitir os 13 anos que se passaram. 

Classificação: 7/10

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