A persistência de uma chama

[Spoilers] Ao escolher a cena representativa deste dia, apercebo-me de que o vento está de alguma forma a embrenhar-se constantemente nesta minha selecção. Depois de um saco de plástico a esvoaçar e de uma momentânea brisa num prado, esta última curiosamente do mesmo realizador, destaco a cena seguinte como uma das mais belas alguma vez filmadas na história da sétima arte. Pertence ao filme Nostalghia (1983) do génio magistral Andrei Tarkovsky. Pessoalmente, é o meu filme preferido do realizador e esta sequência é apenas um exemplo da profundidade que a sua referida obra atinge. A persistência de um homem que quer concluir a tarefa de atravessar uma piscina drenada sem que a chama da vela que transporta se apague. O seu coração fraco dificulta-lhe a missão, acabando por resultar na sua morte. Tem a mente completamente envolvida na tarefa mas o seu próprio corpo enfraquecido apresenta-se como um obstáculo. O plano-sequência de cerca de 10 minutos é longo, o que resulta num certo desconforto por parte do espectador. Queremos ver a sua tarefa concluída mas sabemos que pode não terminar da melhor forma. A cena é sem dúvida belíssima. O som da água, dos seus passos, da sua respiração. Uma tarefa que nos parece descabida mas que adquire todo o sentido para esta personagem, que entrega a sua própria vida para atingir um fim. 

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